Quem me conhece sabe que livros fazem parte da minha vida desde sempre. E foi a primeira forma que encontrei de viajar pelo mundo. Ler simplesmente me transporta pra outra realidade, independente de onde eu esteja.

Confesso que de uns anos pra cá troquei os livros de papel pelo Kindle (livro eletrônico) e não me arrependo nem um pouco. Só facilitou a minha vida e agora posso levar vários livros comigo aonde quer vá, sem ter que pagar taxa extra de bagagem na Raynair sem me preocupar com peso. No ano passado, tive a chance de explorar títulos fantástiscos, que contam muito sobre a História de diversos países que permeiam o imaginário das pessoas que gostam de viajar: Alemanha, Áustria, Inglaterra, Cuba, Rússia, Franca, México etc. E é sobre alguns desses livros que eu vou falar pra você. Vem que eu te mostro!

Os sonâmbulos: Como eclodiu a Primeira Guerra Mundial (Christopher Clark)

Não tente ler esse livro achando que vai encontrar um romance. Não se trata disso.

O livro é uma tese de um professor australiano da universidade de Cambridge e trata dos pormenores que levaram à eclosão da I Gerra Mundial, em 1914.

Ele não fala da guerra em si, mas de toda a complexa conjuntura política, desde o início do século XX, que arrastou os países europeus para essa tragédia, cujo final nós já conhecemos, posicionando o assassinato do arquiduque austríaco Franz Ferdinand pelo separatista bósnio Gavrilo Princip como um evento importante, mas acessório no desenrolar da trama.

O livro faz um raio x de cada país individualmente e tenta mostrar como uma decisão que interferiu na vida da humanidade foi tomada por algumas poucas pessoas politicamente influentes à época. Por meio de uma rede gigante de alianças e inimizades, o jogo do poder é jogado de forma sórdida e inconsequente, sem que a vida humana tenha qualquer relevância para a tomada de decisões. O objetivo é um só: a expansão do poder.

A diferença na abordagem de Clark é que ele dá nome aos bois e caracteriza devidamente cada um dos personagens (e são muitos) que teve alguma influência para a eclosão da guerra. As descrições e contextualizações das figuras históricas são feitas de forma tão detalhada, que em alguns momentos você se pega acreditando se tratar de um romance. E esse é um grande diferencial da obra.

Além disso, Clark questiona claramente a teoria tradicional que entende a Alemanha como única culpada pela guerra. E conclui que não existem inocentes na história.

O autor viaja pelos centros nervosos do poder e mostra como cidades que recebem tantos visitantes hoje em dia viviam à época. Você vai poder viajar por cidades como Viena, Berlim, São Petersburgo, Paris, Londres e Belgrado, nos anos imediatamente anteriores à guerra. E tenho certeza de que quando pisar em uma delas, sua experiência será muito mais enriquecedora , depois de aprender um pouco mais sobre os fatos históricos pelos quais atravessaram. E sim, você vai se pegar torcendo para que o algo dê errado e a guerra não aconteça.

O Homem que Amava os Cachorros (Leonardo Padura)

Sem dúvida, um dos melhores livros que li no ano passado. Leonardo Padura é um escritor cubano e vive em Cuba até os dias de hoje.

Foi ótimo ter lido esse livro imediatamente após “Os sonâmbulos”, pois enquanto este termina com a eclosão da I Guerra Mundial, em 1914, o segundo começa exatamente com a revolução russa de 1917.

Trata-se de um romance que mistura ficção e história, mas você nunca sabe exatamente onde um acaba e o outro termina. A trama é muito bem contada e te prende de uma forma que você não consegue largar o livro. Embora todo mundo já saiba o final.

O livro é dividido em três narrativas. O drama de Leon Trótski, companheiro de Lenin na revolução russa, a partir de seu exílio na Sibéria e, posteriormente, sua expulsão da União Soviética por Stálin, que o persegue literalmente até o fim da vida. Quando sai da URSS, Trótski busca exílio, na Turquia, na Franca, na Noruega e, por fim, no México. É agoniante ver como o personagem foge da morte da todo instante e mesmo assim não se desvia nem por um segundo dos ideais que lhe fizerem liderar a revolução.

A segunda trama narra a história de Ramon Mercader, originário da alta burguesia de Barcelona. Após uma reviravolta na vida da família, ele e sua mãe acabam participando ativamente da guerra civil espanhola e caem nas graças do partido comunista russo. Ramón é escolhido como o assassino de Trótski e a partir daí passa a integrar uma missão que inclui a eliminação completa de sua identidade original.

Tudo em nome “da causa”.

A terceira figura principal do livro é o cubano Iván, que narra toda a história, desde quando sonhava em ser escritor na juventude, até o momento em que recebe uma incumbência e tem a chance de realizar o sonho antigo. Nesta parte da narrativa, Iván conta com riqueza de detalhes sobre a vida no regime comunista cubano. Alguns críticos sugerem que Padura tenha feito uma autobiografia por meio de Iván.

O trabalho de pesquisa do autor é realmente impressionante e retrata os percalços trilhados pela revolução russa de 1917, bem como seus desdobramentos pelo resto do mundo Como se isso já não bastasse, o autor também nos transporta até Espanha, Estados Unidos, Cuba, onde histórias paralelas e importantíssimas para o desfecho final ocorrem

Mas, mesmo que seja mentira, de qualquer forma vamos transformá-la em verdade. E o que interessa é aquilo em que as pessoas acreditam.

Para conhecer melhor o autor, assista à sua participação no programa Roda Viva:

…aqueles escritores soviéticos não podiam deixar de conhecer o horror em que tinham vivido 200 mil prisioneiros (camponeses inconformados, burocratas desonrados, opositores político, religiosos, alcoólicos e até alguns escritores) obrigados, durante anos, a construir as comportas, represas e diques de um canal que incluía 25 milhas de percurso cortadas em rocha viva, só para que Stalin demonstrasse a supremacia da engenharia socialista que, certamente, ele também dirigia. O número de mortos durante a execução da obra nunca poderia ser calculado, mas qualquer soviético sabia que mais de 25 mil prisioneiros tinham perecido em acidentes ou sido devorados pelo frio e pelo esgotamento. Todos sabiam, além disso, que o fornecedor de mão de obra para o canal tinha sido o comissário do Povo para os Assuntos Internos, o maníaco Genrikh Yagoda, e que por esse empenho Stalin lhe atribuíra a Ordem.

Terra Sonâmbula (Mia Couto)

Esse é um livro para as almas sensíveis. Para aqueles que tem empatia pelo outro, que se importam pelo ser humano. Nessa poesia em forma de prosa, Mia Couto, autor moçambicano, transporta o leitor pra um mundo de fantasia misturado com a realidade da miséria humana.

A história é dura e bela ao mesmo tempo, repleta de metáforas e neologismos maravilhoso. Só Mia Couto consegue escrever tudo isso com uma doçura tão ímpar.

A guerra é uma cobra que usa os nossos próprios dentes para nos morder. Seu veneno circulava agora em todos os rios da nossa alma. De dia já não saíamos, de noite não sonhávamos. O sonho é o olho da vida. Nós estávamos cegos.

O livro fala de viagem. Viagem em busca do desconhecido, em busca da paz, em busca de si mesmo. E tem como cenário uma Mocambique explorada pela colonizacao portuguesa e destruída pela guerra civil. O autor nos transporta pra um mundo tão pouco retratado na literatura e nos ensina muito sobre a cultura e a mitologia dessa terra africana. Simplesmente sensacional!

Por isso eu digo: não é o destino que conta mas o caminho.

Mia Couto também participou do programa Roda Viva e vale muito a pena assistir para conhecê-lo:

O destino o que é senão um embriagado conduzido por um cego?

Bom, por hoje é só. Espero que tenha curtido as dicas. Tem algum livro pra indicar também? Deixe aqui embaixo nos comentários que terei muito prazer em ler!

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